Foi um dos meus presentes de aniversário, uma carta.
Uma carta que eu já sabia que existia. Uma carta que eu já sabia que viria carregada de sentimentalismo e, sobretudo, saudades. Uma carta que trouxe um outro presente, no interior: uma fotografia.
Uma fotografia que mostra 'os dias mais felizes da minha vida', segundo o que ele diz. Uma fotografia que mostra uma história que, para uns, não tem pés nem cabeça e, para outros, significa toda a sua vida. Uma fotografia que, para mim, a esta altura do campeonato, deveria apenas fazer-me sorrir, e está a obrigar-me a escrever este texto, que aposto que vai sair tão confuso, tal como me sinto.
Começou tudo em Abril do ano passado, e não vos conto como, porque isso envergonha-me um pouco. O T. deu logo sinais de gostar de mim, como amor à primeira vista. Eu notava isso, aliás, ele não fazia nada para ser discreto.
Eu já tinha vivido uma situação destas, sabia perfeitamente o que podia acontecer e, mais do que tudo, tinha a certeza que não queria viver tudo de novo. Já me bastara o passado, que se prolongara demasiado tempo até ao presente...
Não consegui evitar. Daí a uns tempos, estava a ouvi-lo dizer a palavra, Amo-te. E, a partir daí, tudo aquilo que eu mais temia, tudo aquilo que eu estava a querer evitar, aconteceu.
O T. amava-me. Aliás, ainda me ama. E eu nunca senti o mesmo por ele. E o meu maior erro foi dizer que sim, que o amava, que o desejava, tanto quanto ele me desejava. O meu maior erro foi acomodar-me, deixar-me embrulhar nesta mentira, tudo para evitar magoá-lo. Podem chamar-me hipócrita, mas sim, deixei-me acomodar por causa dele.
Pouco tempo depois de tirarmos a dita fotografia, eu fui completamente sincera com ele. Não de uma vez, mas aos poucos. Foi difícil E o que lhe dificultou ainda mais, foi o facto de ele ter planeado toda a vida dele, comigo. Ele nunca pensou na ruptura, ele sempre foi optimista; eu fui pessimista, eu olhava para a nossa situação, e via que, além de não sentir o mesmo por ele, se o sentisse, era impossível termos uma relação estável, porque não tínhamos condições para tal. Pronto, não digo pessimista, digo realista.
Ele é dos meus maiores amigos, e é alguém que não quero perder. E sei que sou o mesmo para ele, talvez até mais.
Sobre o futuro, logo se verá. Já pensei várias vezes que, quando ele me esquecer, o feitiço vira-se contra o feiticeiro, e invertemos papéis. Ou então a nossa amizade especial acaba de vez. Ou então... Não sei.
Eu gosto do T., acreditem ou não, gosto. É uma sensação estranha, porque sei que não o amo (ou penso que sei!), mas, ao mesmo tempo, não me imagino a viver sem ele.
Agora que eu devia ter mais certezas, está tudo desfocado.
Obrigada.